O SADISMO DA BIKRAM YOGA

Há pouco mais de um ano, me mudei para um apartamento com vista para os prédios do outro lado da rua, sendo um deles a filial de Botafogo da Bikram Yoga. Desde então, saio do prédio e penso: hum… qualquer dia eu vou experimentar essa aula, seria o adianto me exercitar em frente de casa. Mas nunca tinha tempo ou disposição para concretizar tal pensamento.

Em toda a minha vida, devo ter feito umas vinte práticas de yoga, sendo três delas guiadas. Em todas, senti um bem-estar físico e mental. Mesmo sabendo que a Bikram Yoga exige mais fisicamente, por causa do calor, achei que levaria numa boa. Afinal, fui bailarina profissional por alguns anos e fiz muitas aulas e ensaios em salas sem ar condicionado em pleno verão carioca. Esforço físico para mim é dançar O Lago Dos Cisnes completo.

Pois bem, numa sexta-feira dessas, saí mais cedo do trabalho e vi alguns alunos chegando para a aula. Decidi que era o dia. Entrei na recepção e expliquei que gostaria de fazer uma aula experimental. “Ah, tá, tudo bem, é 50 reais a aula e 79 a semana”. Achei bem abusivo o preço, principalmente por se tratar de uma aula experimental. Até então, todas as aulas experimentais que eu fizera foram de graça. Por fim, perguntei se eles teriam tapete para emprestar, a professora foi taxativa: “Alugamos os tapetes por 5 reais”. Pensei, bom, essa parada deve estar cara porque tá na moda; já estou aqui, vou fazer a semana que sai mais em conta, segunda-feira compro o tapetinho. Conversa, ou melhor, negociações encerradas, fui em casa trocar de roupa e pegar o necessário para a prática: uma toalha e uma garrafa d’água.

Assim que cheguei, fui levada à sala. A professora estendeu meu tapete alugado e voltou para a recepção. Ficamos ali por alguns minutos, eu e as demais vítimas, nos habituando com o calor e com a umidade, relaxando no ambiente escuro e quente. Estava gostando, eu adoro sauna. De repente a luz acendeu, os alunos ligaram os seus motores, a professora colocou o microfone (como nas aulas de jumping nas academias) e começou a dar ordens. A partir daí ela não parou de falar um minuto sequer, foi ordem seguida de ordem.

“Fez a pose, fica, respira, enche o pulmão, levanta o cotovelo, mãos embaixo do queixo, sem intervalo, sem permissão, trava os joelhos, pés paralelos, cabeça aponta para o teto, expira, olhos no espelho, queixo paralelo ao chão, sem intervalo, sem permissão, abaixa os cotovelos, trava os joelhos, pés paralelos, coluna reta…”. Todo esse discurso se refere à apenas uma respiração do exercício de respiração que repetimos 40 vezes. Na vigésima repetição eu já estava odiando e com dor no pescoço, mas toda a vez que diminuía o ritmo era repreendida: “Sem intervalo, sem permissão!”. Ao final dessa tortura, eu ainda guardava esperanças para o restante da aula.

Todas as poses, inclusive as de relaxamento, são executadas duas vezes – cada vez para um lado – com uma repetição. O que era para ser um relaxamento, era, de fato, uma pose. A cada repetição a cabeça deveria relaxar para um lado e todos os alunos deveriam estar sincronizados. Coisa de militar. Em uma determinada repetição, minha cabeça terminou inclinada para a esquerda e relaxei com a cabeça para a esquerda, quando ela deveria estar relaxada para a direita. Fui novamente repreendida: “Alice, cabeça para a direita”. Faltou pouco para eu fingir que não escutei, mas achei melhor não comprar briga com a autoridade. Virei a cabeça para a direita e, que diferença isso fez?

A aula continuou, todas as poses regadas a muito suor. Quando fui limpar o suor do rosto, pois meus olhos estavam ardendo, fui novamente repreendida: “Alice, não é bom limpar o suor”. Estou no exército e não sabia, pensei. Os robôs já estavam na pose, meu atraso quebrava a estética militar da aula. “Sem intervalo, sem permissão”. Fiz a pose. “Trava o joelho, mãos entrelaçadas, trava o joelho, queixo paralelo ao chão, olhos no espelho, trava o joelho. Alice, trava o joelho!”. Eu expliquei que ter o peso do meu corpo sobre o joelho todo esticado (travado) doía. “Mas não é para doer, é para fazer bem para o joelho, sem intervalo, sem permissão, você precisa tra-var o jo-e-lho, gente, para saber que o joelho está travado tem que ver o músculo da coxa saltado, sem travar o joelho a pose não vale de nada”. Olha, eu sei o que é esticar o joelho através do acionamento do quadríceps, mas dói porque quando eu tinha 12 anos minha professora de balé sentava no meu joelho para forçar a hiperextensão. Na verdade eu não expliquei nada disso, parei para beber água, que é a único intervalo com permissão.

O sadismo já durava mais de uma hora quando começaram os alongamentos. “Perna na diagonal, abraça o pé, cabeça no joelho, sem intervalo, sem permissão…”. Segui as ordens, mas num determinado momento coloquei a cabeça no chão, sentindo que alongava com mais eficiência. “…cabeça no joelho, ca-be-ça no jo-e-lho. Alice, cabeça no joelho!”. Não há paz na Bikram Yoga. É a anti-yoga. O anti-benefício-da-troca. O anti-namastê. A Bikram Yoga é sadista, autoritária e mercenária.

Saí da aula desidratada, cansada, diminuída e, principalmente, menos humana. Não teve nada de Alice na minha prática, foi pura mecânica. Eu e os demais apenas executamos poses aos comandos detalhistas de um ditador. Pura ignorância. “E, aí, gostou da aula?”. Não sei por que, quis ser gentil: “Mais ou menos, posso decidir depois se faço a semana completa?”. Até podia, mas passava a valer a partir da sexta-feira. “Mas eu não vou vir no final de semana, não pode começar a valer da segunda?” – “Não, aí você teria que pagar 50 dessa aula e mais 79 da semana, a partir de segunda.” – “Vocês não são nada flexíveis, hein?”. Ela pareceu (só pareceu) ficar sem graça: “É, já fomos, mas aí abusaram e agora temos algumas regras.”. Algumas, sei. “Bom, eu volto na segunda para acertar, 50 ou 79, se decidir fazer a semana (contando a partir de sexta).”.

Vamos lá, como se não bastasse toda a tortura da aula em si, a desidratação me rendeu uma dor de cabeça que durou quase 24 horas e ainda tive uma queda de imunidade, permitindo que um vírus da gripe desencadeasse uma breve sinusite com direito a um dia de febre. Namastê.

Claro que não eu quis me submeter a mais uma tortura, o melhor custo benefício era mesmo pagar os 50 reais por uma aula. Fui lá pagar os 55 reais (aula + aluguel do tapete) e aproveitei para falar tudo o que eu achei da aula. Basicamente tudo o que escrevi aqui. Falei, educadamente, e paguei o que devia. Ela nem pensou, ou hesitou, em negar o meu dinheiro. Apesar da insatisfação do cliente com o serviço e o atendimento, recebeu o seu dinheirinho. Sem gratidão. Sem namastê. Sem intervalo. Sem permissão.

Publicado na NOO em 11/11/2014

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