DÉFICIT DE ATENÇÃO E RITALINA

Minha relação com o TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), antes conhecido como Distúrbio do Déficit de Atenção (DDA), começou quando vi o filho de uma conhecida, de apenas 9 anos, tomando Ritalina para conter os sintomas da doença, quais sejam, desatenção, hiperatividade e impulsividade. Fiquei surpresa, comecei a pesquisar sobre o assunto e, apesar de ser mais um grão de areia nessa enorme polêmica, decidi mergulhar no transtorno. Inclusive, quando sugeri a pauta pipocaram alguns depoimentos aqui na redação.

Meu objetivo é chamar a atenção para o fato de que não devemos acreditar que uma pílula solucione a verdadeira doença, o significado de verdadeira doença aqui é o problema em si, não os sintomas. O que está desencadeando os sintomas? Essa pergunta que os pais devem fazer a criança e a si mesmos. Vejo que mais uma moda americana chegou ao Brasil – a de “patologizar” tudo. Não ouso dizer que TDAH é isso ou aquilo, mas proponho uma análise superficial, suficiente pra deixar qualquer cérebro borbulhando de dúvidas.

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Nos Estados Unidos a doença está perto de uma epidemia, quase um em cada cinco adolescentes americanos sofre de TDAH, o que representa um aumento dramático na última década, informou o jornal New York Times. A reportagem afirma que 15% dos meninos em idade escolar nos Estados Unidos receberam diagnóstico de TDAH, contra 7% entre as meninas. Entre os jovens com idades entre 14 e 17 anos, o resultado é ainda maior: 19% para os meninos e 10% para as meninas. Ou seja, 6,4 milhões de crianças com idades entre 4 e 17 anos receberam um diagnóstico de TDAH em algum ponto de suas vidas, um aumento de 16% desde 2007 e de 66% na última década, segundo o NYT. Esse cenário coloca os Estados Unidos em primeiro lugar na lista dos países que mais consomem o psicoestimulante Ritalina. Sabe quem é o segundo da lista? O Brasil.

Agora um fato curioso, na França a percentagem de crianças diagnosticadas e medicadas para o TDAH é inferior a 0,5%. Como é que a epidemia de TDAH, tão estabelecida nos Estados Unidos, foi quase desconsiderada com relação a crianças na França? Acontece que em vez de tratar os problemas de concentração e de comportamento com drogas, os médicos franceses preferem avaliar o problema subjacente que está causando o sofrimento da criança, ou seja, não o cérebro, mas o contexto social. Eles optam por tratar o problema com psicoterapia ou aconselhamento familiar. Esta é uma maneira muito diferente de ver as coisas, comparada à tendência americana de atribuir todos os sintomas de uma disfunção biológica a um desequilíbrio químico no cérebro.

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No Brasil, a Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA) se destaca no assunto, fuxiquei o site todo e minha impressão, a grosso modo, é que os cientistas estão perdidinhos. São tantas certezas e incertezas entrelaçadas que a impressão que fica é bem amadora. O mais engraçado são as perguntas que eles colocaram pra explicar o que é a doença no site, começa assim – “O que é TDAH?”, segunda pergunta – “Existe mesmo o TDAH?”, terceira pergunta – “Não existe controvérsia sobre a existência do TDAH?” Resposta:  – “Não, nenhuma.” e, por fim – “Por que algumas pessoas insistem que o TDAH não existe?”.  Como assim “Não, nenhuma” controvérsia? A própria ABDA formula sua explicação sobre a doença de maneira totalmente paranoica. Ao invés de simplesmente explicar o que é, ficam desmistificando que seria uma doença inventada.

Existem sim, muitas controvérsias. Primeiramente, temos que ter a consciência de que se trata de uma doença psíquica. Mesmo que as novas pesquisas científicas queiram provar que é uma doença genética, não dá pra negar que os sintomas são psicológicos. Não é um vírus, nem uma bactéria, se são genes, que genes são esses? Não se sabe. E como agem os genes em cada indivíduo? De maneira única. Então genética ou não, cada indivíduo tem sua lógica, não basta apresentar sintomas da mesma natureza para concluir que se trata de uma doença única de tratamento comum.

A consequência dessa suposta doença? O metilfenidato, substância química da Ritalina, e um faturamento bilionário da sua fabricante, a Novartis. Há 20 anos, 34 quilos de metilfenidato foram prescritos pelos médicos – hoje são 1,8 toneladas. O TDAH já se tornou um diagnóstico conveniente e na maioria dos casos é dado por clínicos gerais ou médicos de cuidados primários. A droga já pode ser prescrita para crianças a partir dos 7 anos, com isso, sua liberdade, sua personalidade, seu comportamento e sua descoberta de mundo passam a ser controlados artificialmente. Acredito que é preciso entender pelo que a criança e o jovem estão passando e tratar na fonte, não basta criar um ideal fictício maquiando os sintomas, ao suspender o remédio eles voltarão. Até a Comissão Consultiva Nacional de Ética Biomédica da Suiça (NEK) manifestou-se de maneira crítica acerca do uso do medicamento para TDAH – “O consumo de agentes farmacológicos modificaram o comportamento da criança sem qualquer contribuição de sua parte. Isto leva à interferência na liberdade e nos direitos pessoais das crianças, porque os agentes farmacológicos induzem alterações comportamentais, mas não conseguem educar a criança para conseguir tais mudanças por conta própria. A criança é assim privada da experiência fundamental de aprender a agir autônoma e enfaticamente, o que reduz consideravelmente a liberdade das crianças e prejudica o desenvolvimento de sua personalidade.”.

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As controvérsias não são puro “achismo”, como a ABDA faz questão de enfatizar, o antigo chefe da psiquiatria para crianças e jovens da Universidade Hamburg-Eppendorf, na Alemanha, o falecido Prof. Dr. Peter Riedesser, por exemplo, concorda que os sintomas do TDAH têm origem no contexto social – “frequentemente problemas familiares têm um papel importante, que devem ser investigados, além disso, a maioria dos atingidos são garotos, o que também está relacionado com o fato destes não raramente terem um temperamento mais desenfreado do que as garotas. (…) Na realidade, o TDAH é um problema dos incompreendidos jovens da atualidade.”.

Seguindo esta trilha, o neurologista norte-americano Leon Eisenberg, inventor do TDAH, fez importantes revelações sobre a suposta doença pouco antes de falecer – “A pré-disposição genética para TDAH é completamente superestimada. Ao contrário disso, os psiquiatras infantis deveriam pesquisar com muito mais carinho os motivos psicossociais, que podem levar a desvios de comportamento.”, declarou ao jornalista científico e autor de livros, Jörg Blech. Pouco depois a World Public Union (http://www.worldpublicunion.org/) publicou a seguinte declaração de Eisenberg, em sua última entrevista – “TDAH é o principal exemplo de uma doença fictícia.”. Mas apesar da confissão, até hoje a suposta doença tem seu lugar no Manual de Diagnósticos e Estatísticas (DSM).

Outra questão que não pode ficar de fora – os conflitos éticos. A psicóloga americana Lisa Cosgrove e sua equipe investigaram esses conflitos em seu estudo “Laços Financeiros entre Membros do Painel DSM-IV e a Indústria Farmacêutica” e descobriram que “dos 170 membros do painel DSM, 95 (56%) tiveram uma ou mais associações financeiras com empresas da indústria farmacêutica. Cem por cento dos membros dos painéis sobre ‘Transtornos de Humor’ e ‘Esquizofrenia e outros transtornos psicóticos’ tinham vínculos financeiros com empresas farmacêuticas. As conexões são especialmente fortes nas áreas de diagnóstico, onde as drogas são a primeira linha de tratamento para transtornos mentais.”, esclareceu a psicóloga.

Portanto, as controvérsias são inegáveis. Diante do solo frágil, dos inúmeros argumentos contra, do mal que os psicoestimulantes fazem, dos conflitos éticos e da crescente “patologização” de sintomas, é preciso, no mínimo, pensar a respeito. E pensar muito quando se trata de um filho ou de si mesmo. A França é um belo exemplo a seguir, colocando o ser humano antes do dinheiro e do comodismo. Afinal, educar um filho e, simplesmente, o complicado fato de estar no mundo, não é fácil pra ninguém. Se uma pílula fosse a solução – utopia que rende bilhões à indústria farmacêutica – só a imaginação de cada um pode fechar essa matéria.

E aí?

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