SOBRE ANIVERSÁRIOS

Dia 2 de janeiro foi o meu aniversário e eu preciso confessar: Eu não gosto de aniversários. Nem do meu, nem do dos outros.

A começar pela data em si que é uma convenção criada pelo homem. Eu não me senti mais velha no dia 2 e, sim, no dia em que fui morar sozinha, no dia em que deixei de ser dependente do meu pai no plano de saúde, no dia em que assinaram a minha carteira de trabalho, no dia em que juntei os trapos com o namorado, no sábado à noite que preferi ficar em casa, e por aí vai.

Meu aniversário começa quando a minha avó me liga: “Oiiiiiiiiii, fiquei sabendo que alguém ficou mais velha hoje…! (…) Felicidades, saúde, sucesso, muitas alegrias, tudo de bom…”, ao longo do discurso eu dou liga às palavras dela com “hum, hehe, aham, brigada, uhum, é, hehe, brigada…”. Todo ano é a mesma coisa. No Facebook, minha tia agora me manda um cartão virtual (obviamente). Meu irmão deixa uma mensagem no mural – explanando a porra do meu aniversário.

Ou seja, passa o ano, acontecem diversos fatos importantes na minha vida – eles sim me amadurecem – e ninguém da família (com exceção dos meus pais e da minha avó às vezes) liga pra saber de nada, pra parabenizar nada, pra conversar nada, pra dizer algo interessante menos ainda. São pessoas que já não fazem parte da minha vida e são obrigadas a repetir ano após ano os mesmos votos de aniversário e eu obrigada a escutar (ou ler) e responder as mesmas monossílabas do ano anterior. Ora, isso não faz sentido algum! (perdendo a amizade da família em 3, 2, 1)

Por isso, eu nem coloco a data do meu aniversário no Facebook, seriam mais sei lá quantas mensagens vazias. Sinceramente, eu não acho que a pessoa se importa mais comigo porque parabeniza o meu nascimento. Eu conheço bem as pessoas que se importam comigo e elas já sabem – ou deveriam saber – que eu não me importo com aniversários. O mais engraçado é que todo mundo deseja as mesmas coisas. Olha, eu já decorei, já sei o que vocês querem pro meu próximo ano: o mesmo de todos os anos anteriores, “felicidade, saúde, sucesso, muitas alegrias, tudo de bom, paz…”

Não sei o que é pior, o clichê do meu aniversário ou do aniversário dos outros. Eu não quero sair de casa hoje, amiga, pra comemorar o seu aniversário. Simplesmente, porque estou muito cansada ou porque tenho um encontro bem mais interessante. Você pode falar isso pra aniversariante? Não, não pode. Você vai inventar uma desculpa trágica, tipo sua mãe tá deprimida e precisa de você, uma amigdalite atacou a sua garganta, tá com febre, seus pais saíram e você tem que ficar com o seu irmão mais novo, etc. Mas tem consequências, a amiga fica chateada e se você quiser comemorar o seu aniversário ela vai pensar duas vezes se vai ou não. É assim, aniversariantes são vingativas. Antes de tudo elas querem que a festa delas seja um sucesso tenebroso, a ser lembrado por muitos meses. E se não é um sucesso, e normalmente não é mesmo, elas ficam frustradas.

Aqui eu preciso abrir um parágrafo para ele: o Parabéns. Nada faz menos sentido que esse momento da festa. Uma música chata, infantil, pessoas em volta de um bolo cantando e batendo palminha com cara de criança feliz e a aniversariante sem saber se bate palma e canta, se só canta ou só bate palma, se faz uma dancinha lateral com o tronco, ou se fica parado com cara de criança feliz. Gente, sério… o que é isso? Pára. Tem também aquele grupinho que fica atrás, não participa muito e bate palma num ritmo mais lento só pra não ser mal educado – eu me incluo.

E aniversário em escritório? Trabalhei dois anos num escritório de advocacia e devo ter participado da lista de umas 50 pessoas. É sempre igual, alguém manda um e-mail marcando o horário da entrega do presente e, sem surpresa nenhuma, o grupo se desloca pelos corredores até a mesa do aniversariante, que finge se surpreender, e a pessoa que se deu ao trabalho de comprar o presente faz a entrega, seguida dos cumprimentos e votos de cada um do grupo. A única parte boa é que no meu escritório não podia cantar o parabéns.

Há um tempo eu me dava ao trabalho de mandar mensagens no mural de amigos menos chegados, era padronizado: “Parabéns, Fulano! Tudo de bom! Beijos”. Tinham mais umas 300 mensagens iguais a minha no mural do sujeito. Daí um belo dia eu pensei, chega, não faz sentido algum! Por que eu tenho que falar com você nesse exato dia? Eu quero te ligar, mandar mensagem e encontrar quando tiver vontade. Quando partir de mim e não dessa convenção de tempo cultural. Aí sim será verdadeiro, valerá de alguma coisa e, peloamor, fará sentido!

Publicado na NOO em 05/01/2015

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