‘WHIPLASH’ DE MESTRE

Como eu não curto carnaval, aceitei o convite do meu pai para passarmos a data no nosso apartamento de Caxambu, herança da minha avó. Ele levou alguns filmes indicados ao Oscar, a maioria ele já assistira. O seu preferido foi ‘Whiplash’, de Damien Chazelle, por isso decidi assisti-lo primeiro. Eu tinha lido algo sobre o filme e achei que era mais um daqueles de superação. Eu até gosto do gênero, mas não fiz fé que seria do nível de um ‘Menina De Ouro’, ‘Homens De Honra’ ou outros tantos biográficos como ‘Piaf’ e ‘Ray Charles’. De início meu pai pensou o mesmo, mas me garantiu que era “diferente”, “um filme sobre mestre”. Ele adora filmes sobre mestres – deve ser porque ele é um.

(Ainda não sei o que vou escrever, as lembranças do filme vão fluir nas próximas linhas, além de que, acho uma palhaçada esses alertas de spoilers. Se você chegou até aqui, duvido que não siga por causa de um alerta spoiler. Vamos em frente, vamos pensar ‘Whiplash’ e, não importa o que eu disser, não vai perder a graça quando você assistir.)

A princípio, pode parecer que o filme trata da superação de um garoto baterista que tem como mestre um professor carrasco, ou do seu amor e obsessão pela música e o instrumento. Tem tudo isso, ok? No entanto, no decorrer do drama, a gente percebe sobre o quê, de fato, se trata o filme: como um mestre forma um grande artista. O saxofonista Charlie Parker é usado como exemplo na trama – e já virou metáfora aqui em casa. Não conhece a história do cara? Vale dar um Google antes de assistir ao filme.

Essa constatação vai contra a indicação de J. K. Simmons, que interpreta o mestre, para ator coadjuvante e seus diversos prêmios nessa categoria, dentre eles, o Globo de Ouro. Eu e meu pai concordamos que o protagonista é Simmons e não Miles Teller no papel de Andrew Neyman, o estudante de bateria.

Além disso, o nome em português, ‘Em Busca Da Perfeição’, sugere que o tema central é o baterista em busca da perfeição – dã. Já o título ‘Whiplash’, uma das músicas no repertório de Andrew e, do inglês, “chicotada”, tem mais a ver com o fato do professor chicoteá-lo e, ao mesmo tempo, o estudante precisar desse chicote para evoluir.

Essa perspectiva muda tudo. Primeiro porque sai dos clichês “filme de superação” e “professor carrasco”. Segundo porque passamos a assistir ao filme pelo olhar do mestre em vez do aluno. Perto do final, há um diálogo entre os dois que deixa isso bem claro. Fletcher faz um discurso sobre a sua conduta, sua maneira de ensinar e seu objetivo. Se até essa cena você não tinha entendido que o filme é de mestre, a partir dela não restam dúvidas.

Podem criticar seus métodos, mas preciso concordar que “bom trabalho”, “você fez o que pôde”, “acontece”, “na próxima vai ser melhor” não formam gênios. Hoje em dia é assim, não pode dar palmada nos filhos, não pode ser professor durão. Inclusive, esses têm medo dos alunos, pensam não sei quantas vezes antes de falar. Muito fácil acabar em processo judicial ou demissão qualquer método que saia do conjunto “good job”. Não estamos falando de uma escola comum, mas do melhor conservatório de música dos EUA. Dali espera-se gênios, pelo menos Fletcher esperava. Sua maior frustação era não ter formado um Charlie Parker. E não se formam Charlie Parkers com um “bom trabalho”.

Assisti ao filme duas vezes no mesmo dia. Acredito que um bom filme deva ser assistido mais de uma vez, para captarmos todos os detalhes. Alguns pedem ainda mais sessões. Dessa vez, identifiquei a música do mestre na trilha sonora – delicada e linda – a qual Fletcher toca no piano em uma das cenas. Ela mostra, nas entrelinhas (entrefalas), um lado mais sensível do professor, até então só visto na cena em que ele chora a perda de um aluno talvez-futuro-Charlie-Parker.

Eu nunca tive um Terence Fletcher. São raros, assim como os Charlie Parkers. Não sei se um precisa do outro. Mas é uma boa receita no cinema, como nos filmes que citei no início do texto, “Menina de Ouro” e Homens de Honra”, que também são exemplos de mestres durões e até mal educados. Uma coisa é certa: não é fácil combater a lassidão humana. Todos nós precisamos de um ‘WHIPLASH!’

Publicado originalmente na NOO em 19/02/2015

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