ANDERSON x SPIDER

“O maior entre vocês deverá ser servo. Pois todo aquele que a si mesmo se exaltar será humilhado, e todo aquele que a si mesmo se humilhar será exaltado.” Mateus 23:11-12. Está na Bíblia e desde sempre essa citação se comprova verdadeira.

Quem é o mais exaltado dos brasileiros? Tendo em vista que esse é o país do futebol, só posso responder – “Pelé”. Existiu servo maior que Edson Arantes do Nascimento? Não. O Brasil não seria o Brasil sem Pelé e nem o Santos seria o Santos. Ele serviu como nenhum outro e por isso foi eleito Rei. E quem se exaltou mais que Eike Batista? Sua ambição era se tornar o homem mais rico do mundo. Sua exaltação era tamanha que conseguiu vender sonhos por milhões, quem sabe bilhões de reais. Até coleira na Luma de Oliveira ele pôs, exaltando sua macheza.

Pode demorar, mas a humilhação sempre chega. Todo o reinado de Eike despencou, entrou pra lista das carreiras mais desastrosas eleitas pela revista Forbes. A vítima agora é o gladiador Anderson Silva. Anderson se tornou Spider. Quebrou dentes, braços, pernas, etc, etc. Mais que isso, humilhava seus oponentes. Apontava pra si mesmo, de maneira didática – “Bate aqui, ó”. E por sete anos o deboche e a exaltação venceram. Mas sua hora chegou.

Que delícia vê-lo perdendo e caindo como um boneco naquela primeira luta com Weidman. No meio do deboche, o soco. Até eu, que de-tes-to UFC, gostei de ver o nocaute. Os fãs diziam – “Só perdeu porque ficou de brincadeira”. Todos achavam Spider invencível. Essa crença atrasou a humilhação. Foi ridículo, mas ele ainda era o cara.

Dessa vez, lutando sério, a perda seria sincera. A vitória seria digna. Mas Anderson não aceita perder, lutou até o final contra a humilhação e por causa da perna quebrada ele não saiu humilhado. Fatalidades acontecem. Acredito na sorte, mas acredito que há explicações mais conspiradoras para certas coisas nessa vida. Quando tinha 14 anos resolvi participar pela primeira vez de um concurso internacional de dança. Era preciso mandar um vídeo da coreografia a ser apresentada e a equipe do concurso selecionaria as participantes. Num sábado qualquer eu e mais duas amigas filmamos nossos solos. Eu não parava de errar as piruetas. Fiquei mal humorada, estava me odiando, me sentindo incompetente. Lá fui eu filmar pela décima vez. No meio da coreografia torci o pé.

Fatalidade? Não sei. Na verdade acho que me sabotei para não enviar um vídeo ruim e não ser selecionada. Tive uma desculpa, saí de vítima.

Pode parecer conspiração, muitos dirão – “Absurdo!”, mas será que Anderson não se sabotou? Ele estava perdendo no 1º round e sentiu que não daria mais pra ele. Não queria se humilhar para todo o mundo. Qual a saída? A fatalidade. Aquele chute que ele nunca errou saiu pela culatra. Errou feio, errou rude. Ele se fragilizou e a desgraça aconteceu. Anderson saiu de vítima, saiu amado.

Os obtusos dirão – “Ah é, ele planejou quebrar a perna, valeu!”. Óbvio que não. Conscientemente ele não quis quebrar nada, mas do momento em que se sentiu incapaz, se fragilizou, dando brecha para a fatalidade. Agora ele está redimido. A perna quebrada será a razão do adeus, ele não precisará mais provar que ainda é o maior. E sua grandiosidade restará na memória. Todos que acompanham o “esporte” (aspas sim, pra mim não é esporte) acreditavam na sua vitória e, possivelmente, continuarão acreditando que Anderson não levou o cinturão por culpa da fatalidade.

Publicado originalmente na NOO em 06/01/2014

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